O futebol em comparação com outras práticas esportivas é o centro da cultura brasileira. E o próprio entendimento do que seja cultura é reduzido a este fator. Essa tese não é uma percepção apenas por quem é brasileiro. A imagem do Brasil no exterior está associada ao futebol. O Brasil é reconhecido mundialmente, na sua predominância, como o “País do Futebol”, em que o orgulho do brasileiro é a “paixão pela bola”.
Durante o ano todo, a maioria do povo está ligado a este ato lúdico. Vivendo num estádio ou na frente de uma TV, eles sentem o prazer e a alegria de vibrarem pelo seu time do “coração”. Em cada partida, os torcedores se vêm representados nos jogadores, que numa batalha sem armas tentam defender seu país. Ainda mais em ano de Copa, nesses dias, as fábricas, as escolas, as prefeituras, supermercados, farmácias, as conduções etc., orientam-se e funcionam de acordo com a programação dos dias e horários em que a seleção brasileira estará jogando. Pois quem não quer ver o Brasil como hexacampeão na Copa? Este é, pois, um sonho nacional mais unido e desejado do que qualquer outro. E lá estará a maioria dos espectadores cantando: “Eu sou brasileiro, com muito orgulho e com muito amor”.
No entanto, poucos têm consciência das implicações que este “orgulho do brasileiro” traz à vida. O lazer é essencial, porém quando ele toma o centro da vida desloca nossa atenção, agindo como um entorpecente que ameniza as dores da vida, criando um mundo alegrado artificialmente e, conseqüentemente, gerando uma “válvula de escape”. Quem viu os filmes “Prá frente Brasil”, e recentemente “Batismo de sangue”, lembra que mostra o Brasil inteiro torcendo com a seleção de futebol na copa do México (1970), enquanto homens e mulheres na luta de um Brasil justo são presos e torturados nos porões da ditadura militar, entende muito bem está relação futebol como “válvula de escape”.
Nesta perspectiva, a alegria do povo que o futebol ou o “efeito copa” causa, é a “válvula de escape” para as mágoas do brasileiro. E a política capitalista brasileira soube bem usar essa “paixão brasileira” pelo futebol ao seu favor. O espetáculo de diversão e culto exagerado ao futebol torna-se mãos dos políticos um grande instrumento e sinistro mecanismo de controle que alimenta, gota a gota, a maioria dos cidadãos a assistirem um monte de milionários correndo atrás de uma bola. E com doses controladas de adrenalina, esta política consegue manter os cidadãos estagnados, cegos e alienados como forma de obscurecimento da verdadeira realidade que eles vivem.
Afinal, não há nada mais “prazeroso” do que trabalhar de segunda a sábado e, no domingo, gastar uma boa parte do salário miserável em um ingresso caríssimo, ou talvez assinar uma TV acabo para passar duas horas deixando extravasar características emocionais, tais como: paixão, ódio, felicidade, tristeza, dor, resignação, coragem etc. Um evento destes, acompanhado por milhões de pessoas, consegue duas façanhas extraordinárias. Por um lado, prende a atenção das pessoas para um único foco que não se iguala a qualquer outra tentativa, por outro, tem a habilidade de formar grupos ou torcidas organizadas superiores a qualquer outra manifestação por justiça social, de tal modo que os indivíduos irão defendê-las e serão fiéis ao resto de suas vidas. É interessante notar como este culto exagerado ao esporte, em especial ao futebol, consegue colocar as pessoas numa falsa idéia de “verdadeira comunidade”.
Porém, se por um lado o futebol é “alegria do povo”, por outro, ele é uma vitória da política capitalista, porque os indivíduos vão trocar seus protestos contra o avanço da carga tributária do governo, seus protestos contra a corrupção, seus protestos contra a economia injusta, seus protestos contra um salário miserável e seus protestos por uma educação emancipadora, por lazer, que no caso, é o futebol.
O incentivo demasiado a prática do futebol, e tantos outros esportes, é um ópio alternativo. É uma política que postula uma relação de substituição entre assistir na TV a um jogo ou ir ao estádio de futebol e protestar contra as injustiças que a política e a economia implantam na nação. Se retornarmos a dois mil anos, no esplendor do império romano, Cézar e outros historiadores daquele tempo, escreveram como o império ficou mais forte e corrupto. O financiamento de arenas, mais estádios de esportes, mais eventos de gladiadores e mais corridas de cavalos causou um bom efeito para a política romana, porque as pessoas tiveram um espetáculo para se entreter, assim eles não iriam se importar de ficarem pobres, terem impostos além da conta ou serem escravizados.
Levando em conta este aspecto histórico, vale notar que para Copa de 2014 no Brasil o país gastará bilhões em construções de estádios novos, reformas, ampliações, etc. Todo este esforço e absurdo investimento bilionário que contrasta diretamente com os investimentos na área da saúde, educação, reforma agrária e saneamento. Fala-se até que o país “passará vergonha” se não terminarem as obras até 2014, entretanto não se fala na outra Vergonha Real que o país vive que é a desigualdade acentuada, a miséria, a falta de respeito com os direitos humanos, o desmatamentos, exploração dos trabalhadores, a prostituição e assim vai. É interessante notar que a maioria do povo brasileiro estão ansiosos em ver pronto para copa um evento deste sem nenhuma resistência social, que na verdade não passa de um grande evento hiper-real, ou seja, participarão de uma “necessidade” que não são propriamente suas. Mas que por influência organizada de uma política e publicidade insistente, seduz os “consumidores do futebol brasileiro” com um produto que lhe agrada e fascina, e acabam por participar e comprar aquilo que se impõe a sua vontade, independente de precisar ou não. Assim, as necessidades do homem concreto brasileiro são manipuladas para que consumam não o que satisfaz as suas reais necessidades, mas as do livre-mercado.
Portanto, as análises que aqui procederam, é um levantamento de um problema. A exortação de uma anormalidade na normalidade do culto exagerado ao futebol. Pois se no século XIX Marx afirmava que a religião era o ópio do povo, porque ela mascarava a realidade com seu discurso e assim ajudando na manutenção do sistema capitalista, hoje no século XXI, afirmamos que é o futebol o ópio do povo. O incentivo ao culto excessivo ao futebol, mesmo sendo inconsciente, é a manutenção e reprodução do sistema injusto em que vivemos.
Os jogos passarão assim como as chuvas de abril, porém a vida do brasileiro não passará, ela continuará.